sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Alzheimer e as mulheres


 
Neurologista orienta abordagem à paciente com queixas de memória e revela os tratamentos e medidas preventivas mais eficazes para prevenir o problema
 
 A prevalência de demência aumenta exponencialmente com a idade. Porém, alguns estudos observam que, após os 90 anos, tende a diminuir. 

Saiba o que pensa Sonia Maria Dozzi  Brucki, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, sobre os principais aspectos da doença, benefícios do controle de fatores de risco e outras medidas preventivas.
 
Há fundamento no conceito bastante difundido entre a população, de que quanto mais ativo o cérebro, menores serão as características de envelhecimento?

- Sim, a atividade cognitiva é sempre benéfica e jamais sobrecarregará o cérebro. Ela mantém a neurogênese no hipocampo e é responsável pela manutenção e aumento de sinapses nas regiões corticais.
 
Há medidas preventivas eficazes e como devem ser adotadas?

- Sabe-se que o exercício físico e a atividade cognitiva são benéficos ao cérebro e à cognição em qualquer idade. Mesmo indivíduos idosos, que começam mais tardiamente estas atividades, apresentam benefícios. A dieta do tipo mediterrânea (rica em cereais, azeite, peixes, legumes, verduras e frutas) parece ter ação protetora também, bem como o consumo leve de bebidas alcoólicas, principalmente, vinho tinto. Outro ponto importante é o controle de fatores de risco para doenças vasculares, como diabetes, hipertensão arterial, obesidade e tabagismo, principalmente.
 
Quais os principais diagnósticos diferenciais?

- O comprometimento cognitivo deve ser investigado com exames de imagem (tomografia ou ressonância magnética) e laboratoriais (hemograma, função hepática e renal, cálcio, função tireoidiana, dosagem de vitamina B12 e de ácido fólico e sorologia para sífilis) para afastar causas potencialmente tratáveis e reversíveis. Dependendo das funções cognitivas e/ou comportamentais acometidas, o diagnóstico diferencial pode ser com Doença de Alzheimer, demência com corpos de Lewy, demência vascular, demência frontotemporal, entre outras.
 
Existem critérios objetivos que podem ser transmitidos à família para que possa auxiliar na suspeita de que há algum problema?

- Alguns achados podem servir de alerta. O principal deles é a comparação do indivíduo com ele mesmo, ou seja, observar a capacidade de trabalho eo raciocínio, bem como as atividades elaboradas e verificar se o indivíduo segue com a mesma capacidade de antes.
 
Quais os melhores tratamentos disponíveis hoje no Brasil para o Alzheimer?

- A doença de Alzheimer tem tratamento sintomático para a cognição, com relativa estabilização do declínio ou até mesmo melhora. Deve se iniciar o mais precocemente possível e inclui inibidores das colinesterases, que são fornecidos gratuitamente pelo SUS. Outras medicações como a memantina podem ser indicadas, bem como o tratamento específico para outros distúrbios que possam aparecer, como apatia, depressão, irritabilidade, agitação ou alucinações.
 
Muitas mulheres, em diferentes idades, queixam-se de perda de memória. Como o ginecologista pode identificar as que devem ser avaliadas por um neurologista?

- Primeiramente, deve descartar causas não degenerativas, quetambém podem levar ao comprometimento de memória, como hipotireoidismo, déficit de vitamina B12, entre outros. Também verificar se as queixas não estão relacionadas adepressão e/ou ansiedade. E de qualquer forma, um ponto fundamental a ser observado é se, junto à queixa de memória, há alguma dificuldade na realização de atividades do dia a dia.
 
Existe explicação para a maior incidência de Alzheimer e outras demências em mulheres?

- Alguns estudos observaram uma frequência maior entre mulheres, porém, não todos. Elas vivem mais e, como a Doença de Alzheimer é característica do envelhecimento, talvez isto explique, em parte, os estudos que as apontam como as mais acometidas. Outra explicação seria o déficit de estrógeno do envelhecimento, pois este hormônio tem ação de crescimento de neurônios e sinapses em estudo in vitro.
 
Qual a sua opinião sobre a relação entre terapia de reposição hormonal (TRH) e as ações cerebrais?

- A TRH já se demonstrou ineficaz após o início dos sintomas cognitivos. Em alguns estudos, inclusive, teve efeito oposto. Alguns estudos apontam para um possível período ótimo para a sua ação no cérebro, mas novas pesquisas devem ser realizadas para melhor avaliação, pois ainda não está bem explicadaa sua indicação ou contra-indicação. No momento atual, sabemos que não deve ser usada para melhora da cognição em pacientes com demência ou como preventiva especificamente para isso.
 
 

Enviado por: Kelly Silva / Patricia Boroski

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